Otto Lara Resende tinha razão: "o mineiro só é solidário no câncer"
Hoje, no simulado, apareceu um texto ótimo publicado na Folha em setembro de 2001. É velho, eu sei, mas fala de uma coisa muito válida: a indiferença da opinião pública em relação as "pequenas" injustiças do mundo.
Segundo o texto, na semana do 11 de setembro teria sido realizada na Assembléia Geral da ONU a Sessão Especial sobre a Criança. Mas, com os atentados, muitas coisas foram canceladas, inclusive a Sessão. Assim, o mundo descobriu o Osama Bin Laden, e deixou de descobrir coisas como: 11 milhões de crianças morrem por ano no mundo, 30 mil por dia; no Brasil são 108 mil por ano. Foi um câncer, que destruiu um grande ser chamado World Trade Center ofuscando pequenos tumores, que todos os dias matam pequenas células.
O mundo não é justo e bonito, começamos a descobrir isso muito cedo. E acredito que, tendo essa consciência, não precisamos de uma grande tragédia pra nos despertar. A fome, a morte e o crime são uma constante, em qualquer lugar, não é preciso um avião e duas torres, o assassinato de uma criança de classe média pra que eles existam.
Vivemos a maior parte do tempo anestesiados, alheios ao que acontece além da nosso perímetro, indiferentes ao um e meio WTCs - falando em números- cheios de bebês que, a cada mês, "caem" no Brasil, derrubados por uma série de coisas mais abstratas mas não menos destruidoras que uma jihad fundamentalista: abandono, descaso, ineficiência, corrupção.
Enquanto discutem-se soluções e punições - principalmente punições que "dêem uma lição" nos culpados - para grandes e "circensisados" cânceres, tumores silenciosos viram estatísticas, a serem discutidas talvez, quem sabe, se der, na próxima-tal cúpula - que, aparentemente, nunca acontece, ou não dá resultados mesmo.
Proteger a vida é um ideal fortíssimo, defendido ferozmente quando as vidas estão nos pólos, sofrendo com o degelo, nos frigoríficos, sofrendo com a morte precoce, nos acontecimentos internacionais, como foi o caso do WTC, e estranhamente ignorado quando as vidas estão em todos os lugares, sem contexto "especial" e sem grandes histórias.
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domingo, 21 de setembro de 2008
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Um comentário:
" E aos jornais, eu deixo meu sangue como capital "
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