quinta-feira, 9 de outubro de 2008

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2006: eu tinha uma vida.

Vamos lá, enquanto os pingos de chuva estão poucos (parece passageira. Tomara!). São só dois quarteirões, dez minutos dá pra fazer. Chuva? Cinco e meia da tarde, segunda feira, avenida Tiradentes. Passando ali o banco já tem uma esquina. Essa esquina. Difícil, viu? Aqui, tudo bem, mas pra atravessar ali a segunda parte é complicado. Esperar o sinal abrir? E esses carros que viram ("que nem uns loucos", diria a minha mãe, e não sem razão) pra lá, tão de repente.
Atravessei, ufa. Agora é só mais um pouquinho. Já dá pra ver a massa de prédios do centro, o do banespa dominando, todo metido como cartão-postal de bandeirinha tremulando lá no alto. Tremulando? É, é o vento. Mas tá sempre tremulando. Menos naqueles dias muito quentes que até o ar é parado, aí até o banespa, até a bandeira param, respirando, suando, língua pra fora. Como toda a cidade. Concreto, asfalto, gente, ferro; inspirando e expirando. Jardim da Luz, depois Pinacoteca... eu não disse que era rápido?, olha aí. Jardim da Luz. Essas esculturas. Bonitinhas. Tem até uma do Brecheret aí, meio perdida no meio das árvores e das putas. Deve ainda ter sobrado uns macaquinhos, uns pássaros. Talvez. Sobreviventes, quem sabe felizes no meio do verde no meio do caos.
Lá fora tem uma placa: "Alternativa: Pinheiros". Laranja. Placa laranja é coisa de obra, ela até tá colocada meio precariamente, o que prova que ela faz parte de mais uma manobra da prefeitura pra tentar melhorar a cidade. Mas com o quebra-quebra antes ("Inevitável", justificam). Caos. Fura o asfalto, bota tapume, a moto costura os carros, o motorista xinga, horário de pico. Ou não. Caminho pro centro, tá sempre congestionado. Sempre. Pinacoteca. E olha que maravilha, enfim uma "surpresa" no meu monótono fim de tarde: tão quebrando aqui em frente à Pinacoteca. Tectectec. Desencaixando os paralelepípedos. Parece breve. Tomara. Amanhã vai tá cheio de ônibus aqui na frente, crianças uniformizadas gritando e correndo, foram ver Portinari. Portinari, o menino de Brodósqui. Os meninos de São Paulo. Agora, três lances de escada. Depois trem (ambulantes, pedintes, ô mundo deformado!), depois ônibus, depois casa, depois sono e blábláblá. Rotina.

4 comentários:

Anônimo disse...

ahhh essa rotina que endurece os coracoes dos homens... e o meu tb =/

luciana disse...

a gente perde muito tempo com a rotina. o que fazer?
chico buarque fez música, eu só tô aqui achando tudo muito chato.
:*

Ressaca de Martini disse...

Laura! Essa escritora que está em você me surpreende. Escondida numa moça com jeito de criança, ar de adulta e sonhos de adolescente. Amo-te.

Ressaca de Martini disse...

Laura! Essa escritora que está em você me surpreende. Escondida numa moça com jeito de criança, ar de adulta e sonhos de adolescente. Amo-te.