A vocação comercial e receptiva do Bom Retiro surgiu no final do século XIX, com a construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e da Estação da Luz. A rotina do bairro, então ocupado por chácaras, uma das quais chamada Bom Retiro, foi alterada. Os armazéns que guardavam os produtos vindos de trem começaram a se proliferar. Junto deles, vieram as fábricas e os imigrantes italianos, principal mão de obra da indústria naquele tempo.
As amplas casas foram substituídas por fábricas e sobrados, e a língua italiana tornou-se uma das mais faladas no bairro. Os italianos predominaram na região até a década de 1920, quando começaram a chegar os imigrantes judeus.
Vindos principalmente do Leste Europeu, os judeus se estabeleceram como comerciantes e administradores da indústria têxtil, tradicional na região. Foi no Bom Retiro que encontraram espaço para preservar a sua cultura, fundando a primeira sinagoga de São Paulo, escolas judaicas e o TAIB, Teatro Alternativo Israelita Brasileira. “Eu cresci aqui no Bom Retiro, e na minha infância morar aqui era praticamente sinônimo de ser judeu. Toda a cidade sabia que se você quisesse encontrar a colônia, deveria vir ao Bom Retiro”, conta a professora aposentada Anastácia Furtado, 65. A partir dos anos 70 se deu um novo ciclo de imigração, e o bairro mudou novamente de cara e idioma.
As lojas de roupa permaneceram lá, só que agora comandadas por sul coreanos. Preenchendo o vazio deixado pelos judeus, que se mudavam para bairros nobres como Higienópolis, os coreanos deram novo fôlego ao comércio local e construíram uma colônia representativa, com escolas, igrejas e um vasto comércio voltado para os próprios imigrantes.
Hoje, a cara do Bom Retiro é mais heterogênea do que nunca. Os bolivianos, chegados na última década, acentuaram o caráter cosmopolita do bairro, acrescentando novos costumes.
Essa pluralidade de culturas faz com que conhecer o Bom Retiro seja uma oportunidade de, percorrendo algumas poucas ruas, encontrar um pouco de cada colônia.
Os coreanos são os mais visíveis do bairro. Quem caminha pela rua Três Rios encontra restaurantes, lojas, salões de cabeleireiro e igrejas voltados para a colônia. Os tradicionais judeus, embora não morem mais na região, continuam frequentando as sinagogas e lojas de comida koscher – preparada de acordo com as regras indicadas pela Torá, livro sagrado da religião. Os bolivianos são cada vez mais presentes, não só como trabalhadores nas confecções – onde, muitas vezes, trabalham em condições precárias, por não ter documentação legal – , mas também como moradores dos prédios antigos e casas de cômodo, o tradicional primeiro refúgio de quem acaba de chegar ao país. Os gregos, em menor número, se reúnem em restaurantes como o Acrópole, na Rua da Graça.
“As pessoas daqui acabam criando uma verdadeira vizinhança. As diferenças religiosas e a barreira da língua não fazem com que as pessoas se afastem”, diz o comerciante Alexandre Bacellar, 33. Sua loja, na Rua Guarani, a comida koscher divide espaço com artigos orientais e nacionais, o que faz com que seus produtos sejam procurados por outros imigrantes além dos judeus.
Apesar do cuidado com a preservação da identidade e as diferenças culturais poderem ocasionar um isolamento das comunidades, no Bom Retiro existe convivência. Numa tarde de sábado é possível encontrar uma família coreana usando roupas orientais. Na calçada em frente, dois judeus ortodoxos passam conversando, enquanto em outro canto da rua um grupo de bolivianos sai para um passeio. E assim, embora haja diferenças de classe entre os representantes das colônias, nas ruas do Bom Retiro não há nada que os diferencie ou que delimite de forma cerrada os seus espaços – ou o seu direito a conquistá-los. Nelas, todos são estrangeiros que sempre se sentirão em casa.
Um comentário:
que bom que voltou.
muito interessante o lance dos bairros, Laura!
continua, continua /o/
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