Aos 14 anos eu li "Ciranda de Pedra". Era meu primeiro livro da Lygia Fagundes Telles, comprado em um extinto sebo do centro de Santo André, quando a cidade ainda não estava cheia deles. Era um sebo clássico, com pé direito alto, livros empilhadas e espirros garantidos pra quem se aventurasse a procurar alguma coisa.
Mas certas coisas você não compreende bem nessa idade. Ou compreende de um jeito que parece ingênuo demais, quase alienígena, quando você se lembra anos depois. Foi o que aconteceu com Ciranda de Pedra.
O saldo da minha primeira leitura foi um happy end (ou quase). História: Virgínia, a protagonista, é desde criança secretamente apaixonada por Conrado, vizinho e espécie de príncipe encantado. Virgínia, depois de reviravoltas na família, vai viver em um colégio interno, de onde sai praticamente adulta. Ao voltar para casa percebe que o lapso de (cerca de) 10 anos não significou nenhum avanço no assunto Conrado, por quem continua apaixonada. Mas como desde sempre parecia iminente um romance entre o rapaz e Otávia, irmã gatinha da protagonista, e como o sentimento de Virgínia não era correspondido ela cai na esbórnia pra esquecer esse amor impossível - e se vingar de uns outros personagens. No último capítulo ela decide se mudar, comprar uma passagem só de ida pra qualquer lugar. Mas antes vai falar com Conrado. Ele, para a surpresa de todos, diz que sempre foi apaixonado por Virgínia, desde criancinha. Mas que nunca teve coragem de fazer nada. Eu achei fofa e linda essa declaração de amor tardia. E infrutívera.
Eu 'tava lembrando disso outro dia. Da história e da minha impressão inicial sobre ela. E pensei: que cuzão esse Conrado. Não achei, como antes, uma pena que Virgínia não desistisse da viagem pra viver feliz pra sempre com o príncipe. Achei bem feito pra ele. Seria melhor ter feito alguma coisa quando adiantava. Um lado frio, analítico, diz isso. Outro diz: como condenar? Quem garante que eu agiria diferente?
Daí acho que só agora entendi Lygia. Que vi a história de verdade. Que vi uma história de verdade nesse livro. Com 14 anos fazia só 4 anos que eu lia livros da Disney, aqueles grandões, cheio de desenhos bonitos. Meu hábito era encontrar príncipes encantados e finais felizes. Eu vi um príncipe encantado em Conrado. Provavelmente até Raskólnikov, de Crime e Castigo, seria um príncipe encantado - escondido atrás de uma figura perturbada, como a Fera. Qualquer personagem seria um príncipe encantado. Eu via príncipes encantados. Todo o tempo.
Agora, pensando na história, a declaração tardia não gera suspiros, e mesmo a raiva passa rápido. Dá a impressão de que ele é familiar demais, a sua hesitação e o seu medo em relação a Virgínia são plausíveis, realistas. Não é um conto de fadas. Agora eu vejo uma pessoa de verdade em Conrado, insegura, com nuances, e por isso não há como condenar nem como gostar das suas atitudes (é confuso demais isso). Acho que vejo isso porque agora eu vejo pessoas de verdade. Parece que crescer é mais ou menos por aí.
Obs: Lygia é mesmo incrível.
5 comentários:
Lembrei de mamãe me dizendo, há uns bons anos: "Tatiana, te apresento a vida adulta".
E não é?
tem livros que chegam cedo demais na vida, mesmo.
mas a melhor parte é quando eles voltam.
não vou nem começar a falar da Lygia... :)
atualmente eu preferia ver os príncipes, porque se aos 24 as pessoas de verdade são assim, imagine aos 30 o que verei delas.
btw, foi com venha ver o por do sol e as formigas que ela me ganhou pra sempre.
lindo texto, laura
não sabia que você escrevia tão bem
parabéns :)
Postar um comentário