quarta-feira, 13 de outubro de 2010

de livros que chegam cedo demais na nossa vida

Aos 14 anos eu li "Ciranda de Pedra". Era meu primeiro livro da Lygia Fagundes Telles, comprado em um extinto sebo do centro de Santo André, quando a cidade ainda não estava cheia deles. Era um sebo clássico, com pé direito alto, livros empilhadas e espirros garantidos pra quem se aventurasse a procurar alguma coisa.
Mas certas coisas você não compreende bem nessa idade. Ou compreende de um jeito que parece ingênuo demais, quase alienígena, quando você se lembra anos depois. Foi o que aconteceu com Ciranda de Pedra.
O saldo da minha primeira leitura foi um happy end (ou quase). História: Virgínia, a protagonista, é desde criança secretamente apaixonada por Conrado, vizinho e espécie de príncipe encantado. Virgínia, depois de reviravoltas na família, vai viver em um colégio interno, de onde sai praticamente adulta. Ao voltar para casa percebe que o lapso de (cerca de) 10 anos não significou nenhum avanço no assunto Conrado, por quem continua apaixonada. Mas como desde sempre parecia iminente um romance entre o rapaz e Otávia, irmã gatinha da protagonista, e como o sentimento de Virgínia não era correspondido ela cai na esbórnia pra esquecer esse amor impossível - e se vingar de uns outros personagens. No último capítulo ela decide se mudar, comprar uma passagem só de ida pra qualquer lugar. Mas antes vai falar com Conrado. Ele, para a surpresa de todos, diz que sempre foi apaixonado por Virgínia, desde criancinha. Mas que nunca teve coragem de fazer nada. Eu achei fofa e linda essa declaração de amor tardia. E infrutívera.

Eu 'tava lembrando disso outro dia. Da história e da minha impressão inicial sobre ela. E pensei: que cuzão esse Conrado. Não achei, como antes, uma pena que Virgínia não desistisse da viagem pra viver feliz pra sempre com o príncipe. Achei bem feito pra ele. Seria melhor ter feito alguma coisa quando adiantava. Um lado frio, analítico, diz isso. Outro diz: como condenar? Quem garante que eu agiria diferente?

Daí acho que só agora entendi Lygia. Que vi a história de verdade. Que vi uma história de verdade nesse livro. Com 14 anos fazia só 4 anos que eu lia livros da Disney, aqueles grandões, cheio de desenhos bonitos. Meu hábito era encontrar príncipes encantados e finais felizes. Eu vi um príncipe encantado em Conrado. Provavelmente até Raskólnikov, de Crime e Castigo, seria um príncipe encantado - escondido atrás de uma figura perturbada, como a Fera. Qualquer personagem seria um príncipe encantado. Eu via príncipes encantados. Todo o tempo.
Agora, pensando na história, a declaração tardia não gera suspiros, e mesmo a raiva passa rápido. Dá a impressão de que ele é familiar demais, a sua hesitação e o seu medo em relação a Virgínia são plausíveis, realistas. Não é um conto de fadas. Agora eu vejo uma pessoa de verdade em Conrado, insegura, com nuances, e por isso não há como condenar nem como gostar das suas atitudes (é confuso demais isso). Acho que vejo isso porque agora eu vejo pessoas de verdade. Parece que crescer é mais ou menos por aí.


Obs: Lygia é mesmo incrível.

5 comentários:

Tatiana disse...

Lembrei de mamãe me dizendo, há uns bons anos: "Tatiana, te apresento a vida adulta".
E não é?

Carina Carvalho disse...

tem livros que chegam cedo demais na vida, mesmo.
mas a melhor parte é quando eles voltam.

não vou nem começar a falar da Lygia... :)

lu disse...

atualmente eu preferia ver os príncipes, porque se aos 24 as pessoas de verdade são assim, imagine aos 30 o que verei delas.

lu disse...

btw, foi com venha ver o por do sol e as formigas que ela me ganhou pra sempre.

Isabella disse...

lindo texto, laura
não sabia que você escrevia tão bem
parabéns :)