ela tinha um amigo e uma carta (em mente). duas coisas. mas raciocinava sobre a adequação daquele verbo, ter. não sabia se era a palavra exata, não existiam sinais concretos que provassem qualquer posse. não sabia também qual tempo usar. se é que tinha, tinha ainda ou havia tido?
pensou então: ela tivera uma amizade. e constatou, satisfeita pela habilidade gramatical mas triste pelo significado daquele tempo, que o pretérito-mais-do-que-perfeito ficava bem ali. mais do que perfeito é quando uma ação começa e termina no passado, lembrou. e os olhos nostálgicos liam o sentido literal: o passado era mesmo mais do que perfeito. fazia sentido.
o desejo de escrever a carta surgiu por saudade, por uma obstinação em não deixar morrer o que é/fora bonito. ensaiou várias vezes. em grafite, tinta, pixels, neurônios puros. escolhia as palavras, consultava no repertório de cenas o que valia a pena relembrar.
o inventário: os livros que liam, as músicas que gostavam e citavam trechos, as crônicas compartilhadas, os relatos do cotidiano, expectativas, medos, a idéia madura de que iriam pelo mesmo caminho no futuro, uns anos de adolescência.
achou a enumeração boba, e sabia que aquilo, seguramente, não correspondia à memória. faltava alguma coisa, mas decidiu arriscar, pois já sabia que raramente textos eram perfeitos - ao menos os dela. só podia torcer pra que ele se lembrasse também.
3 comentários:
daquelas coisas que a gente acha que foi escrito sobre a gente... mas no meu caso ele não lembra.
muito bem, menina laura.
Bonito texto, Laurita.
Bonito mesmo.
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