Estranho, não é, passar os olhos por uma vida que, vista assim, nem parece a sua. se tivessem sido seus aqueles dias você certamente saberia dizer como foram e pra onde foram. a memória dos sentidos, aguçada, explodiria em relatos sobre: a cor do céu, das pessoas, a temperatura do ar, os sons. mas, por mais que você escave, as lembranças são parcas e diluídas. pequenos flashs de cenários e rostos dos quais você lembra o primeiro nome. o suficiente pra puxar, lá no arquivo, uma burocrática ficha de identificação: quem era, do que gostava, hábitos irritantes, hábitos legais, se era legal ou chato, se te fez algum mal, se te fazia sorrir, se te dava pena ou inveja. mas o sentido dessas experiências não é compreensível assim. faltam não sei se detalhes e o frescor da vivência ou maturidade e calma para rever tudo de forma racional, ordenada. para atribuir sentido e tomar conclusões. não é pra isso que o passado serve?
passaram mais um punhado de anos e eu não vi nada. pra piorar, joguei fora cadernos, agendas e todos os pedaços de papel que podiam contar algo. fica um vazio, anos de vazio histórico. se, na velhice, eu quisesse resgatar como foram esses anos eu ficaria com a sensação de um amputado ou de alguém acometido por uma amnésia. nenhum pedaço físico (ainda bem) foi cortado, e meu cérebro, no curto prazo, não costuma esquecer dos fatos, nem apaga absolutamente tudo. mas a memória dos detalhes, dependente do suporte externo e das palavras transcritas, se perde, some, vítima do tão aclamado desapego. é tão fácil diluir a própria vida, basta uma lata de lixo - e lá se vai sua vida, engolida, rumo à decomposição.
para viver ouvindo: não vou me adaptar, nando reis.
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