sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

arquivo: urbanóide 1 - o irlandês

dos meus rascunhos nunca publicados aqui do blog. um texto que eu escrevi em setembro de 2008. é sobre um cara que eu via todos as manhãs no ponto de ônibus. ele se vestia sempre igual, era alto, ruivo, com a barba ruiva e a pele avermelhada. isso correspondeu à imagem mental de "irlandês", então eu o chamei de irlandês. decidi publicar como um tributo ao tempo em que eu escrevia espontaneamente sobre as coisas do mundo, que ainda causavam um certo encantamento e geravam curiosidade. bons tempos.


Eu e o irlandês nos encontramos todas as manhãs no ponto de ônibus. Eu de calça jeans e mochila, ele de terno e sem nada nas mãos; eu pego um ônibus azul, ele um vermelho.

Assim como os meus, os dias do irlandês parecem ser todos iguais: ele sai de casa com o seu terno risca de giz, vai até o ponto de ônibus e aguarda a chegada do 372R. Ao avistar o ônibus, se ninguém o fizer, estende a mão direita e, ao ver o ônibus parado e com a porta aberta, entra. Depois de entrar, como qualquer pessoa, paga a sua passagem e se tiver sorte se senta. Embora o meu testemunho termine aí, acredito que o resto do dia do irlandês também seja sempre a mesma coisa, ou quase. Ele deve descer do ônibus e entrar no metrô lotado. Descer numa estação, subir as escadas rolantes e caminhar até algum escritório ou qualquer ambiente de trabalho formal o bastante pro seu terno risca de giz. E cumprir uma rotina de trabalho mais ou menos previsível: problemas, computador, café, falar com a secretária, almoço, café, computador, chefe, problemas - e o caminho de volta - metrô, ônibus, casa.

Mas hoje foi um dia especial na vida do irlandês: foi o seu dia de folga. Vinha eu no meu ônibus quando entra no mesmo o irlandês, dessa vez sem risca de giz, e sim de jeans, camiseta verde (irlandesa) e tênis. Havia feito compras no supermercado: carregava algumas sacolas de plástico amarelas. Que momento singular na vida do irlandês, não? Não fosse a sua folga, ele estaria pensando em problemas na frente do computador. Mas não, o único problema no qual ele havia pensado era: nuggets com queijo ou legumes?, na frente do freezer.

Um comentário:

Carina Carvalho disse...

muito bacana!

acho doce observar os amigos-vítimas-metropolitanos que nos rodeiam.