Muito chato só voltar pra falar como não consigo mais escrever?
Acho que sim, mas ainda assim quero dizer que:
Percebi que meus olhos executam menos funções do que antes. eles continuam me fazendo ver os carros que vêm na minha direção quando atravesso uma rua, evitam acidentes, garantem o andamento normal do dia, com seus copos, talheres, elevadores, os 25 ou 50 gravados em relevo na superfície das moedas, textos na tela do computador, cadarços de tênis, torneiras e catracas.
mas tenho a impressão de que antes eles sabiam enxergar mais coisas nesse amontoado de rotina e pragmatismo. pessoas, por exemplo. no ônibus, do outro lado do balcão da padaria, na rua, na sala de aula, elas cresciam aos meus olhos (ou meus olhos é que cresciam na direção delas) e viravam como que personagens. a aparência era digna de observação, os detalhes da roupa e do cabelo, seus gestos, sua postura ereta ou curvada, o que faziam e quando formavam um universo que eu gostava de observar, especular e escrever. e os seres inanimados também. cores, texturas e detalhes eram melhor captados e eu sabia transmitir tudo isso. eu sabia (acho) olhar o mundo e as pessoas.
e pra dentro de mim também. Demian disse: "se afastar de si mesmo é um pecado. É preciso que se saiba encerrar em si, como tartaruga". e realmente, o que acontecia do lado de cá da minha cabeça e do meu peito rendia algumas reflexões e palavras. tudo bem umbiguista, é verdade, mas ainda assim era boa a sensação de conseguir elaborar alguma coisa. sem escrever nada, mesmo que fosse pra mim mesma, tudo que aconteceu ficou por digerir, por entender, vários fatos ainda a ser pensados e pesados, congestionando a cabeça, travando os pensamentos e os dedos. escrever também é importante para não implodir.
desaprendi a ver as coisas que precisam ser escritas, mas espero voltar.
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